3 de dezembro de 2008

Luiz Beltrão e sua Teoria da Folkcomunicação


Por:
Tamara Beghini


Luiz Beltrão

Pernambucano de Olinda foi o pioneiro da pesquisa científica sobre os fenômenos comunicacionais na universidade brasileira. Nascido em 8 de agosto de 1918, Luiz Beltrão foi fundador do Instituto de Ciências da Informação, primeiro centro acadêmicos nacional de estudos midiáticos, e da primeira revista de ciências da comunicação (Comunicações & Problemas), na Universidade Católica de Pernambuco, em 1963. Tornou-se também o primeiro doutor em comunicação no Brasil (Universidade de Brasília, 1967). Sua obra ganhou reconhecimento nacional e prestígio internacional, nos âmbitos do jornalismo e da comunicação de massa. Foi ao mesmo tempo, educador, pesquisador e divulgador científico. Luiz Beltrão faleceu em Brasília em 1986.


Beltrão formou toda uma geração de professores e pesquisadores da comunicação. E converteu os resultados das suas pesquisas em material didático, difundido na sala de aula ou estocado em livros direcionados a jovens estudantes e profissionais.

Tem uma vasta bibliografia comunicológica, subdividida em três segmentos:

a) Teoria e Pesquisa da Folkcomunicação;

b) Fundamentos teóricos da Comunicação de Massa;

c) Teoria e pesquisa do Jornalismo. Além disso, publicou livros de reportagem, contos e novelas, dedicando-se ao memorialismo na sua última fase de produção intelectual.

Teoria da Folkcomunicação

Um estudo dos agentes e dos meios populares de informação de fatos e expressão de idéias (Tese de Doutoramento), Brasília, UnB, 1967.

Material retirado do livro: Folkcomunicação: teoria e metodologia.

São Bernardo do Campo: Umesp, 2004.

Comunicação é o problema fundamental da sociedade contemporânea - sociedade composta de uma imensa variedade de grupos, que vivem separados uns dos outros pela heterogeneidade de cultura, diferença de origens étnicas e pela própria distância social e espacial.

Os grupos constitutivos da sociedade ora estão organizados com uma missão específica a cumprir e interesses definidos a salvaguardar, como é o caso do Estado, da Igreja, do sindicato ou da empresa; ora são informais, ligados apenas espiritualmente por certas idéias filosóficas, interesses gerais e experiências comuns à espécie humana - como a Nação, os crentes, os trabalhadores, os consumidores.

Há, entretanto, na sociedade contemporânea, não obstante as características próprias e os conflitos de interesses imediatos de cada grupo, uma unidade mental, decorrente da própria natureza humana dos seus componentes e de um universal consenso. Os grupos acham-se, assim, vinculados a uma ordem semelhante de idéias e a um propósito comum: - adquirir sabedoria e experiência para sobreviver e aperfeiçoar a espécie e a sociedade. Sabedoria e experiência, sobrevivência e aperfeiçoamento que só se conseguem mediante a comunicação, - o processo mínimo, verbal e gráfico pelo qual, os seres humanos intercambiam sentimentos, informação e idéias.

Os grupos que compõem a sociedade atual são, entretanto, grandes, heterogêneos e dispersos. Não mais podem ser reunidos, como os atenienses na Ágora ou os romanos no Fórum, para que ouçam as mensagens e tomem decisões. Em conseqüência, a comunicação direta, pessoal, cara a cara, permitindo o diálogo com as suas reações imediatamente constatadas, tornou-se limitada, de efeitos pouco rendosos e apuração lenta. Para a sociedade de massa, exige-se a comunicação maciça, coletiva, que, utilizando diferentes instrumentos e técnicas, fornece mensagens de acordo com a identidade de valores dos grupos e, dando curso a diferentes pontos de vista, fomenta os interesses comuns, ora desintegrando ora criando solidariedade social.

A comunicação coletiva não se faz entre um indivíduo e outro como tal, mas em forma colegiada: o comunicador é uma instituição ou uma pessoa institucionalizada, que transmite a sua mensagem, não para alguém em particular, mas para quantos lhe desejam prestar atenção.

Embora estabelecida através de uma distância de tempo, espaço ou espaço-tempo, entre as partes e, aparentemente, unilateral, desde que, em regra, é feita através de um meio técnico construído de tal forma que somente o comunicador “fala”, constitui um diálogo, tanto como a comunicação pessoal.

Nesta, o comunicador envia mensagem ao receptor que reage, tornando-se comunicador para enviar mensagem de retorno ao primeiro comunicador, tornado receptor, visando outra reação. E o processo se reinicia ou se interrompe, pondo termo ao fenômeno comunicativo. Na comunicação pessoal, privada, há interrupções periódicas e mesmo definitivas da atividade comunicativa entre o comunicador e o receptor - que são indivíduos entregues a diversas outras atividades, algumas das quais dispensam a comunicação. Mesmo porque o comunicador pessoal é movido por interesse particular, a sua mensagem tem um caráter predominantemente interesseiro. Devo falar com o meu chefe no escritório todos os dias, mas quando me transfiro de ocupação, posso até mesmo deixar inteiramente de estabelecer contato com ele.

Na comunicação coletiva, porém, o órgão comunicador só exerce uma espécie de atividade - a comunicativa. Não há, portanto, interrupções do circuito ou perda de contato entre os dois elementos - o agente e o paciente do processo. Assim, embora a comunicação coletiva seja, tecnicamente, unilateral, os receptores na verdade alimentam o diálogo, utilizando outros meios mecânicos para manifestar a sua reação, que não se reclama seja necessariamente em palavras. Porque a resposta à mensagem, na comunicação coletiva, não é discussão, mas ação.

Daí que a investigação dos meios utilizados para a reação dos receptores e a avaliação do seu conteúdo, através de inquéritos e pesquisas que se traduzem em cálculos e estimativas, em classes e médias, tem de ser objeto contínuo da atividade do comunicador coletivo, a fim de orientar a sua própria conduta, em favor dos desejos e necessidades do órgão receptor, também coletivo.

Simultaneamente com a caracterização da sociedade de massa e o estabelecimento do império dos símbolos, que marcam o auge da competição individual e coletiva, mas reclamam como nunca um certo tipo de consenso na ação social, verificou-se a revolução tecnológica na comunicação. Iniciada com a publicação de impressos e a instituição dos correios, foi acelerada neste século com o cinema, o rádio e a televisão.

A nova situação ampliou o campo do comunicador coletivo e, conseqüentemente, exigiu o estudo e a investigação. Mais mesmo dos efeitos, uma vez que a escolha dos meios, canais, métodos e técnicas para tornar eficientes e produtivas as comunicações depende de um balanço sistemático das reações às mensagens expedidas.

Nos tipos de comunicação direta, a avaliação da reação é automática, facilitada pela singeleza do processo. Mas na comunicação coletiva a reação tem de ser inferida: há que captá-la, analisá-la e submetê-la a confronto com outros fatos e circunstâncias sociais, sob diferentes ângulos e adotando diferentes critérios e métodos. A avaliação, aqui, deixa de ser automática para ser ponderada.

Folkcomunicação é, assim, o processo de intercâmbio de informações e manifestação de opiniões, idéias e atitudes da massa, através de agentes e meios ligados direta ou indiretamente ao folclore.

A folkcomunicação também se especializa, torna-se caracterizada de acordo com os seus objetivos e efeitos combinados.

Trabalho realizado para a disciplina de Teoria da Comunicação

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